Mães e filhas

Falo alguma coisa sobre a minha mãe e:

– Mas tu não tem mãe, profe.

– Eu tenho sim.

– Mas como? Tu é adulta!

A colega ouve e retruca:

– Ué! Meu pai é adulto e tem mãe também!

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Papo sério.

Precisamos conversar.

Eu sempre procuro trazer a leveza e a simplicidade de trabalhar com crianças… Acontece, que por elas serem tão transparentes, fica muito fácil percebermos como é o universo em que ela vive.

Me peguei um dia desses ouvindo duas bailarinas discutindo, um tanto irritadas uma com a outra, sobre “Meninos não dançam”:

– Meninos dançam sim.

– Meninos não dançam não. Meninos não podem fazer ballet.

– Podem sim. Meninos podem dançar ballet, né profe Beta?

Eu sendo chamada para a discussão prontamente respondi:

– Sim, meninos podem dançar ballet também.

Eis que o que eu tive de resposta foi:

– Não podem dançar não. Meu pai disse que meninos não podem dançar.

Gente… Vamos refletir:

Imaginem a minha situação de ser confrontada com um “meu pai me disse”, o que eu deveria fazer?

Não estou entrando no mérito de pessoas não aceitarem a ideia que seus filhos possam dançar. Não estou entrando no mérito de gostar / aceitar / querer / aprovar a ideia de que meninos dançam, mas o fato é:

Meninos PODEM dançar sim.

Dizer que “não podem” é mostrar claramente falta de argumentos sobre isso e dar um tiro no pé. Crianças cada vez mais estão absurdamente espertas para perceber nossas respostas, então vamos tomar cuidado.

A minha resposta?

– Olha… Eu tenho alunos meninos que dançam ballet.

Sem confrontar, apenas relatando fatos.

Esse podia ser um texto sobre preconceito, mas ele deveria ser muito mais longo se fosse assim…

Isso é apenas um lembrete sobre COMO e O QUE falamos para esses pitocos de hoje.

 

Bolinhas.

Ela para no meio da aula e aponta para minha bochecha:

– Profe… Tem bolinhas aqui.

Eu me olho no espelho para ver onde e não encontro nada, aí peço pra ela me mostrar, ainda olhando para o espelho.

– Aqui ó. – E aponta para minhas sardas.

Escabelada

Ela de 4 anos:

– Hoje eu to muito escabelada. Meu cabelo tá todo escabelado… Minha cara tá toda escabelada também!

Para sonhar

– Ô profe, eu tenho um fritos dos sonhos.

– Quê??

– Um fritos dos sonhos.

Contenho a vontade de rir e digo:

– Fiiiiiiltro dos sonhos.

– Não é não! É Frito!

Mágico

No mesmo evento, em que trabalhei na Páscoa, havia shows de mágica.

Ao final de um deles, eu estava conversando com um mágico quando uma das crianças aparece:

– Com licença, tu que é o mágico?

Ele responde:

– Sim, sou eu.

– Tu poderia me ajudar?

– Com o que?

– É que um amigo meu desapareceu.

– … E tu quer que eu te ajude a achar ele?

– Sim. Tu não é o mágico?

Cenouras

Trabalhei na Páscoa.

Com isso estive perto de inúmeras crianças, de todas as idades.

Eu estava cuidando de um brincadeira onde elas deveriam levar cenouras e grudar na barriga do coelho. Quando a barriga já estava cheia de cenouras, eu tirava uma a uma para começar tudo de novo.

Ela, de 4 anos me vê no momento em que estou tirando as cenouras da barriga do coelho e me pergunta:

– Ô tia, por que tu tá tirando as cenouras daí?

Eu, com toda a minha vasta experiência com crianças e o mundo lúdico, respondo:

– É que o coelho já comeu muita cenoura, então eu estou tirando pra ele poder descansar e comer de novo.

– Ah tá. É que eu achei que era porque a barriga dele não tinha mais espaço e as outras crianças iam querer colocar cenoura ali também.

– … É… Pode ser também.

Olhos

– Que cor são os olhos de vocês?

– O meu é azul!

– O meu é casco! (castanho)

Elogio Duplo

– Profe, tu tá muito mais fofa.

– Ah é?

– Sim, mais que as aulas.

– Por quê?

– Porque tu tá linda!

Independente

Ela, com 3 anos:

– Me ajuda a me vestir?

– Ué?! Ano passado tu te vestia sozinha.

– Quando eu tava no Maternal 1?

– Sim…

– E o que eu dizia?

– Que não era pra eu te ajudar porque tu sabia se vestir sozinha…

– Ah…

Prontamente ela pegou as calças e começou a se vestir sozinha.