Pequenas Palavras

Coroas

– Ô profe… Por que tu usa duas coroas?

– Coroas?

– Sim. – Ela aponta para meus dois COLARES.

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Pequenas Palavras

Ausência

Fiz a chamada e uma das colegas não estava.

– Alguém sabe da Ana?

– Não veio. Ela saiu antes.

Uma das coleguinhas indignada fala:

– Não!! Ela não foi embora!

– Ah não? Ela está aqui ainda? – Questiono.

– Não! Ela não foi embora porque ela nem veio na aula!

Grandes Relatos, Sobre Todo Resto

A Minha Pequena História

Hoje a história de criança, vai ser minha mesmo.

Sei lá. Ás vezes parece que a vida vai levando a gente e quando reparamos, tanta coisa aconteceu, tanta coisa passou por nossos olhos… Muitas conseguimos reparar e tantas outras sequer percebemos…

A vida me levou a me formar em Educação Física, em ser professora de dança. O corpo, a arte e a expressão fazem parte do meu dia a dia. Mas só num dia desses me lembrei, de pequenos e incríveis momentos que tive na infância. Momentos que eu achava normais, mas hoje percebo o quão especial foi tê-los e o quanto eles me trouxeram aqui, onde estou hoje.

Cresci num apartamento de dois quartos, pertinho do Guaíba, onde tenho algumas memórias gostosas da minha infância como o aquário de água salgada que meus pais tinham. Eu não frequentei uma Escola Infantil regular, na minha “escolinha” eu aprendia a jogar basquete, correr, dar cambalhotas e saltos, hoje vejo que a opção dos meus pais foi por uma iniciação esportiva, decisão que hoje eu admiro muito, mas que na época eu achava que era a coisa mais normal desse mundão todo.

Na casa da praia, meu pai pregou degraus nas árvores para que a gente pudesse subir e colocou vigas de madeira pra gente poder atravessar de uma árvore para outra. O medo que caíssemos? Sei lá.

Tirando a parte da praia, fui criança de apartamento sim e eu AMAVA. Tinha um quarto meio a meio com meu irmão, meus brinquedos e um trapézio no marco da porta do meu quarto. É, desses de circo mesmo. Lembro de colocar várias almofadas embaixo e ficar me embalando incansavelmente…

Lá em casa, podíamos estar na maior crise financeira da vida, mas se eu pedia um livro, eu ganhava, “Porque livro é cultura”. Por falar nisso meu primeiro livro foi “O Jardim Secreto”, livro de 272 páginas e poucas figuras para uma menina que recém tinha aprendido a ler. Minha mãe me contava as histórias de contos de fadas, já meu pai me levava pra céu aberto, pegava o telescópio dele e me contava histórias da mitologia, de Orion e das constelações. Já vi as crateras da lua, já vi os anéis de saturno e aprendi a encontrar Marte a olho nu. Também aprendi a história do Márcio, que plantava macieiras lá no céu e é por isso que o céu fica rosa, lindo, ao pôr do sol.

Agora vou contar só mais uma coisinha. Deixei por último para podermos refletir com calma. Até meus sete anos, morei nesse apartamento que falei. Não sei bem como começou, o que sei, é que eu podia pintar as paredes da casa. Não, não to falando do meu quarto. A sala TODA era pintada, principalmente com giz de cera, era o que eu mais gostava, funcionava bem com a textura da parede. Como eles deixavam? Não sei. Se fosse comigo eu deixaria? Provavelmente não. O que sei é que a parede era pintada da metade pra baixo onde eu alcançava, o resto estava branquinho, esperando eu crescer. A gente vendeu o apartamento, as paredes foram pintadas, mas o desenho que eu fiz da minha mãe grávida do meu irmão não vai sair da minha cabeça, nunca.

Hoje percebo como fui estimulada quando era pequena, como a educação que eu tive não me limitou e isso eu agradeço, agradeço demais, ainda mais agora, que eu percebo claramente o quão especial foi cada um desses momentos para a minha construção como SER. Obrigada pai. Obrigada mãe.

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Pequenas Palavras

Nascimento

Elas conversando sobre times de futebol…

– Eu não sei ainda de que time eu sou, porque eu sou paulista e ainda não decidi para qual torcer aqui.

Eu, surpresa com a informação que não sabia:

–  Tu é paulista?! Não sabia que tu tinha nascido em São Paulo!

A colega de 7 anos me ouve e fala:

– Eu não nasci em São Paulo. Eu nasci no hospital.

Pequenas Palavras

Cafuné

– No final da aula ao invés de massagem, eu posso fazer cafuné em quem quiser.

– Eu quero cafuné!!!!!

Ela para, pensa… Continua:

– Mas… O que é cafuné?!

Pequenas Palavras

Ponoilas.

– Quando esfria assim eu coloco minhas polainas, fica tão quentinho!

– Eu também trouxe minhas PONOILAS hoje, profe!

Pequenas Palavras

Batata, cebola e sal.

Estávamos nós, brincando de cozinhar fazendo borboletinha. Pedi para que cada uma pensasse em uma receita e não me avisasse qual era.

– Quem vai colocar sal?

– Eu!

– Eu!

– Eu também!

– Quem vai colocar cenoura?

Algumas responderam. O mesmo aconteceu com a batata, o brócolis, a cebola.

– Quem vai colocar chocolate?

– Eca, eu não. Vai ficar ruim.

– Eu vou!

Levamos um tempo colocando ingredientes, mexendo, cheirando para ver se estava bom, até que ficou pronto.

Sugeri que cada um diria o que colocou e a turma teria que adivinhar a receita.

– Eu coloquei água, cenoura, brócolis, cebola… Mas água… Muuuuuito mais água…

– Sopa profe! Tu fez sopa!

– Isso! Próxima!

– Eu coloquei açúcar, farinha e chocolate!

– Tu fez um bolo de chocolate!

– Acertou!!!

– Já eu, coloquei ovo e aquelas coisinhas verdes que minha mãe coloca.

– Temperinho ver? – Eu digo.

– Isso!!

– Hmmmmm. Omelete?

– Não! Panqueca verde!

Até aí, estava tudo ok, receitas simplificadas para cabecinhas de 4 anos, não é? Até que…

– Eu coloquei batata, cebola e sal!

– Hmmmmmm. Tu fez purê de batata!

– Não! Eu fiz salsicha!!

Agora… Como explicar os ingredientes de uma salsicha???

Pequenas Palavras

Mães e filhas

Falo alguma coisa sobre a minha mãe e:

– Mas tu não tem mãe, profe.

– Eu tenho sim.

– Mas como? Tu é adulta!

A colega ouve e retruca:

– Ué! Meu pai é adulto e tem mãe também!

Pequenas Palavras

Papo sério.

Precisamos conversar.

Eu sempre procuro trazer a leveza e a simplicidade de trabalhar com crianças… Acontece, que por elas serem tão transparentes, fica muito fácil percebermos como é o universo em que ela vive.

Me peguei um dia desses ouvindo duas bailarinas discutindo, um tanto irritadas uma com a outra, sobre “Meninos não dançam”:

– Meninos dançam sim.

– Meninos não dançam não. Meninos não podem fazer ballet.

– Podem sim. Meninos podem dançar ballet, né profe Beta?

Eu sendo chamada para a discussão prontamente respondi:

– Sim, meninos podem dançar ballet também.

Eis que o que eu tive de resposta foi:

– Não podem dançar não. Meu pai disse que meninos não podem dançar.

Gente… Vamos refletir:

Imaginem a minha situação de ser confrontada com um “meu pai me disse”, o que eu deveria fazer?

Não estou entrando no mérito de pessoas não aceitarem a ideia que seus filhos possam dançar. Não estou entrando no mérito de gostar / aceitar / querer / aprovar a ideia de que meninos dançam, mas o fato é:

Meninos PODEM dançar sim.

Dizer que “não podem” é mostrar claramente falta de argumentos sobre isso e dar um tiro no pé. Crianças cada vez mais estão absurdamente espertas para perceber nossas respostas, então vamos tomar cuidado.

A minha resposta?

– Olha… Eu tenho alunos meninos que dançam ballet.

Sem confrontar, apenas relatando fatos.

Esse podia ser um texto sobre preconceito, mas ele deveria ser muito mais longo se fosse assim…

Isso é apenas um lembrete sobre COMO e O QUE falamos para esses pitocos de hoje.

 

Pequenas Palavras

Bolinhas.

Ela para no meio da aula e aponta para minha bochecha:

– Profe… Tem bolinhas aqui.

Eu me olho no espelho para ver onde e não encontro nada, aí peço pra ela me mostrar, ainda olhando para o espelho.

– Aqui ó. – E aponta para minhas sardas.